Parecia que tudo se havia reunido num sorriso súbito, um sorriso liberto do coração, preso nos lábios. Sentia-se orgulhosamente mulher, com uma confiança e vaidade desmedidas, como se trouxesse nas roupas femininas toda a vontade colossal de viver. No rosto uma normalidade falsa, nos olhos uma ansiedade única. Sentia-se curiosamente feliz e nenhuma máscara senão a da própria felicidade a poderia esconder. A rádio tocava músicas pouco comuns ao quotidiano, mas apetecia-lhe ouvir músicas diferentes do habitual, enquanto fazia do assento do automóvel a sua espera. E era como se repentinamente não houvesse rádio, mas houvessem orquestras sinistras no coração, onde batidas ansiosas ecoavam pelo miocárdio e se repetiam nos olhos, num brilho incomum.
Sobre os olhos, o lápis preto desenhara um traço de realce, como se não fosse os olhos que quisesse marcar, mas sim a sua presença. Ela vestiu o coração de esperança, como se o verde dos olhos estivesse subitamente trancado também no coração. Arranjou o cabelo. Reparou no realce dos olhos e gostou do verde deles, como se subitamente eles fossem frutos verdes. Ela sentia-se extremamente criança, trancada numa casa de bonecas, onde o mundo da fantasia girava ao redor dos seus cabelos negros. Sentia uma felicidade infantil. Tinha medo, ansiedade, mas também esperança. Caminhou pelo corredor. Disseram-lhe que estava bonita como nunca. Apreciaram-lhe a roupa. E ela caminhou pelo corredor, com o coração a bater, nas músicas descontroladas de um uma ansiedade amorosa que o seu coração contratara contra a sua vontade, mas que lhe sabia bem. Trazia na expressão facial um olhar triunfante, feliz, nas maçãs do rosto um tom avermelhado. Sorriu para si mesma. Ao seu lado, as amigas, para uma segurança única que só ela sentia. Caminhou, sentia o seu rosto quente, como cerejas, deliciosamente maduros. Sentia vergonha, mas também uma auto-estimava invulgar. E caminhava, com o olhar entre o triunfante e o envergonhado, numa vontade súbita de correr enfrente e a de voltar a correr para trás. Mas não, ela não iria para trás, não o poderia fazer, o coração não lho permitia, nem ela o queria. Ao fundo, a porta. Aguardou que a abrissem. Enquanto isso, pousou o olhar no chão. Lá em baixo, nos seus pezinhos 36, as favoritas All Stars. Sentia-se bem para si mesma com elas. As All Stars eram os seus sapatinhos de cristal como Cinderela moderna. E ela voltou a sorrir para si mesma, e a porta abriu-se, lá dentro, a sua esperança, a sua ilusão.
No relax
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Domingo com os termómetros muito e baixo e sem filha cá em casa, é sinónimo de:Estar até tarde na cama até as costas se ressentirem de tanto descanso...Últim...
Há 1 semana


